Nosso Rito · Biblioteca

O Rito de Emulação: três séculos de tradição

Da taverna Goose and Gridiron à Emulation Lodge of Improvement — a história do ritual que nossa Loja pratica e que se tornou o padrão da Maçonaria de tradição inglesa em todo o mundo.

Introdução

Emulação significa “seguir o exemplo”. É exatamente isso que o Rito de Emulação se propõe a fazer há mais de dois séculos: preservar, sem acréscimos nem ornamentos, o ritual aprovado pela Grande Loja Unida da Inglaterra após a união das duas grandes correntes da Maçonaria inglesa — transmitido de geração em geração, de boca a ouvido, com a maior fidelidade possível à sua forma original.

É o rito praticado por nossa Loja: um trabalho marcado pela sobriedade, pela precisão e por uma elegância que dispensa adornos — a força do Emulação está na palavra exata, no gesto exato, no silêncio exato.

1717Premier Grand Lodge
1813União — nasce a GLUI
1816Ritual conciliado aprovado
1823Emulation Lodge of Improvement
19691ª edição impressa oficial

1717 — O nascimento da Maçonaria especulativa

Em 24 de junho de 1717, quatro Lojas londrinas reuniram-se na taverna Goose and Gridiron, no adro da Catedral de São Paulo, e fundaram a Premier Grand Lodge of England — a primeira Grande Loja do mundo —, elegendo Anthony Sayer como seu primeiro Grão-Mestre. Nascia ali a Maçonaria especulativa organizada.

Poucos anos depois, em 1723, o pastor James Anderson reescreveu os antigos deveres (Old Charges) das corporações de ofício no célebre Book of Constitutions — as “Constituições de Anderson”, pedra fundamental da Ordem que até hoje baliza a Maçonaria regular em todo o mundo.

O grande cisma: Antigos × Modernos

Em 1751, maçons insatisfeitos com as inovações da Grande Loja original — liderados pelo irlandês Laurence Dermott, autor do livro de constituições Ahiman Rezon — fundaram uma Grande Loja rival. Ironicamente, os dissidentes chamaram a si mesmos de “Antigos”, por defenderem as práticas tradicionais, e apelidaram a Grande Loja pioneira de “Modernos”, por suas mudanças no ritual.

Durante mais de sessenta anos, as duas obediências disputaram a legitimidade da tradição maçônica inglesa. Os Antigos enfatizavam a progressão ritual até a Cadeira do Mestre e a importância do Arco Real; os Modernos haviam simplificado e alterado usos que os rivais consideravam essenciais.

A Lodge of Promulgation (1809–1811)

O primeiro passo rumo à reaproximação veio dos próprios Modernos: em 1809, por determinação do Príncipe de Gales, foi criada a Lodge of Promulgation, encarregada de estudar e restaurar os usos tradicionais — entre eles a cerimônia de Instalação do Venerável Mestre.

“A cerimônia de instalação dos Mestres das Lojas é um dos verdadeiros marcos da Maçonaria.”
— Ata da Lodge of Promulgation, 19 de outubro de 1810

A União de 1813 — nasce a Grande Loja Unida da Inglaterra

Em 27 de dezembro de 1813, dia de São João Evangelista, os irmãos reais Duque de Sussex (Grão-Mestre dos Modernos) e Duque de Kent (Grão-Mestre dos Antigos) selaram a união das duas Grandes Lojas, dando origem à Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI) — até hoje a Grande Loja mãe da Maçonaria de tradição inglesa.

A união política, porém, exigia uma união ritual: era preciso definir um único modo de trabalhar, aceitável para Antigos e Modernos.

A Lodge of Reconciliation (1813–1816)

Para essa missão foi criada, em dezembro de 1813, a Lodge of Reconciliation, composta por peritos ritualistas das duas correntes. Durante quase três anos, seus membros harmonizaram as cerimônias e as demonstraram — sempre oralmente — às Lojas de Londres.

Em junho de 1816, as formas rituais conciliadas dos três graus foram aprovadas pela Grande Loja Unida da Inglaterra. A política adotada desde então é clara: preservar o ritual tão próximo quanto possível de sua forma aprovada. De fato, desde 1816 as únicas mudanças significativas restringiram-se às cláusulas de penalidade, suavizadas por decoro — todo o restante permanece.

2 de outubro de 1823 — a Emulation Lodge of Improvement

Concluída a missão da Lodge of Reconciliation, restava garantir que o ritual aprovado não se corrompesse com o tempo. Foi para isso que, em 2 de outubro de 1823, realizou-se a primeira sessão da Emulation Lodge of Improvement for Master Masons, sob a sanção da Lodge of Hope: uma Loja de instrução destinada a “formar e motivar Mestres para adotarem o Emulation Working como padrão ritualístico”.

Outras Lojas de instrução existiram antes dela — Burlington (1810), Perseverance (1818) —, mas a Emulation é a única que se manteve ativa, semanal e ininterruptamente, até hoje, reunindo-se em Londres, no Freemasons' Hall. Só Mestres Maçons podem frequentá-la. Entre seus preceptores célebres está Peter Gilkes (1765–1833), lendário pela memória e pelo rigor, que consolidou o prestígio da Loja como guardiã do ritual.

Sua Regra 155 resume o espírito da casa: qualquer decisão sobre o ritual exige aprovação da maioria da Loja — nada muda por vontade individual.

A tradição oral: 150 anos sem ritual impresso

Herdeiro das tradições operativas — que remontam aos Estatutos de Schaw, na Escócia de 1598 —, o Emulação manteve por quase 150 anos a transmissão exclusivamente oral do ritual: era vedado escrevê-lo, e o aprendizado se fazia “de boca a ouvido”, de preceptor a discípulo.

Versões não oficiais circularam ao longo do século XIX — como a de Carlisle (1825) e a de Claret (1838) —, mas a Grande Loja Unida da Inglaterra jamais publicou um texto oficial. Somente em 1969 a primeira edição impressa oficial do Ritual de Emulação veio a público, editada por A. Lewis com o patrocínio da própria Emulation Lodge of Improvement.

A força do Emulação não está no livro — está no maçom que o carrega de cor, no coração e na memória.

Características do Rito

O Emulação é frequentemente descrito como “espartano” quando comparado a outros ritos: menos adereços, procedimentos objetivos, nenhum ornamento supérfluo. Suas marcas distintivas incluem:

  • Trabalho de memória: o ritual deve ser conhecido e praticado de cor — falas, posturas, deslocamentos e sinais exatos;
  • À Glória do Grande Arquiteto do Universo: todos os trabalhos em Loja são realizados sob essa invocação, com o Volume da Lei Sagrada sempre aberto;
  • Sobriedade e decoro: o Venerável Mestre fala sentado; a marcha inicia-se com o pé esquerdo; são três as batidas em todos os graus;
  • Sem disputa de cargos: a progressão dos oficiais segue a tradição, sem eleições disputadas;
  • Excelência reconhecida: na Emulation Lodge of Improvement, o Mestre que executa uma cerimônia inteira sem qualquer erro recebe a tradicional Silver Matchbox (caixa de fósforos de prata) — até maio de 2023, apenas 367 irmãos alcançaram a distinção, e somente 121 completaram as quatro cerimônias com perfeição.

Os graus e o trabalho em Loja

Como toda a Maçonaria simbólica, o Emulação trabalha nos três graus — Aprendiz Admitido, Companheiro do Ofício e Mestre Maçom —, cada qual com sua cerimônia própria, suas instruções (lectures) e seu ensinamento moral, conduzidos com a precisão e a dignidade que caracterizam o rito.

A cerimônia de Instalação do Venerável Mestre, restaurada pela Lodge of Promulgation, ocupa lugar de honra: não por acaso, é na forma de Emulação que Grandes Lojas e Grandes Orientes de todo o mundo instalam seus Veneráveis.

O Emulação no mundo e no Brasil

Adotado pela maioria das Lojas sob a constituição inglesa e por incontáveis Lojas de outras obediências, o Rito de Emulação tornou-se referência global de autenticidade e continuidade ritual. No Brasil, é praticado por Lojas de diversas potências — e não deve ser confundido com o Rito de York americano, engano frequente: o Emulação é o ritual inglês em sua forma consolidada após 1813.

É essa tradição que a B∴O∴A∴R∴L∴S∴ Arquitetos da Virtude nº 02 cultiva em Sorocaba, sob a jurisdição do Grande Oriente Maçônico do Brasil: o compromisso de trabalhar como trabalharam os antigos — com memória, silêncio, exatidão e reverência.

✦ ✦ ✦

Personagens históricos

Anthony Sayer (c. 1672–1741)

Primeiro Grão-Mestre da história, eleito na fundação da Premier Grand Lodge of England, em 24 de junho de 1717, na taverna Goose and Gridiron, em Londres.

James Anderson (1679–1739)

Pastor presbiteriano escocês. Reescreveu os antigos deveres das corporações de ofício no Book of Constitutions (1723), as “Constituições de Anderson” — o documento fundacional da Maçonaria especulativa.

Laurence Dermott (1720–1791)

Irlandês, secretário e grande articulador da Grande Loja dos “Antigos”, fundada em 1751. Autor do Ahiman Rezon, o livro de constituições dos Antigos, e defensor ardoroso das práticas tradicionais e do Arco Real.

Duque de Sussex (1773–1843) e Duque de Kent (1767–1820)

Filhos do Rei George III e Grão-Mestres, respectivamente, dos Modernos e dos Antigos. Em 27 de dezembro de 1813 selaram a união que criou a Grande Loja Unida da Inglaterra; o Duque de Sussex foi seu primeiro Grão-Mestre.

Peter Gilkes (1765–1833)

O mais célebre preceptor da Emulation Lodge of Improvement. De memória prodigiosa e rigor absoluto, dedicou a vida ao ensino do ritual e é considerado o grande responsável pela consolidação do Emulation Working como padrão.

A. Lewis (século XX)

Editor da primeira edição impressa oficial do Ritual de Emulação, publicada em 1969 com o patrocínio da Emulation Lodge of Improvement — encerrando quase um século e meio de transmissão exclusivamente oral.

Fontes: “Os mais de 200 anos do Rito de Emulação” e “Rito de Emulação” — freemason.pt (Maçonaria e Maçons); “Ritual de Emulação” — Wikipédia; Emulation Lodge of Improvement — registros históricos da Grande Loja Unida da Inglaterra.

Quer viver a tradição maçônica?

Nossa Loja trabalha no Rito de Emulação, em Sorocaba/SP, com reuniões todas as segundas-feiras às 20h.

Saiba como ser Maçom